Imagem de São Francisco de Assis segurando instrumento de cordas

Música e Quaresma: O Som do Silêncio e o Convite ao Deserto.

Orientações para a Pastoral da Música - Paróquia São Francisco de Assis

08/02/2026 - Por: Marcelo Bozi


Olá, queridos irmãos e irmãs das equipes de música da nossa Paróquia!

Estamos nos aproximando da Quaresma, um tempo de 40 dias de retiro espiritual, penitência e conversão. Se a nossa vida fosse um filme, a Quaresma seria aquele momento de silêncio profundo antes da grande celebração final.

Para que nossa liturgia ajude a comunidade a mergulhar nesse mistério, precisamos "ajustar os nossos instrumentos" — não só as cordas e teclas, mas o nosso modo de servir. Seja você um veterano de décadas na caminhada ou alguém que acaba de entrar no ministério, estas orientações são o nosso mapa para este tempo.

1. A Regra de Ouro: Sobriedade

A Instrução Geral sobre o Missal Romano (IGMR n. 313) é clara: na Quaresma, o som dos instrumentos deve apenas sustentar o canto.

O que muda: Evitemos solos instrumentais, introduções longas ou floreios virtuosos.

Dica prática: Se puder, use menos instrumentos. Um violão dedilhado ou um teclado com timbre de piano/órgão suave ajudam mais a rezar do que uma banda completa com bateria e distorção.

2. O Jejum das Palavras: O Adeus ao "Aleluia" e ao "Glória"

A Igreja faz um "jejum labial" de duas expressões de suma alegria:

  • O Glória: Fica guardado. Não o cantamos nem o recitamos (exceto em Solenidades, como São José e a Anunciação).
  • O Aleluia: É omitido totalmente. No lugar do Salmo Aleluiático, usamos o Versículo de Aclamação (ex: "Louvor e glória a ti, Senhor, Cristo, Palavra de Deus").

3. Letras Teocêntricas e Bíblicas

A Quaresma pede músicas que falem de: arrependimento, deserto, conversão, misericórdia e a Paixão do Senhor.

Cuidado com o "subjetivismo": Evitem músicas que foquem demais nos nossos sentimentos pessoais e prefiram as que usam textos bíblicos ou o próprio Hinário Litúrgico da CNBB.

4. O Valor do Silêncio

Músico católico não é "tapa-buraco" de silêncio. Na Quaresma, o silêncio faz parte da música.

Após as leituras e após a comunhão, permitam que o silêncio ecoe. Não é necessário um fundo musical o tempo todo. Deixem que a Palavra de Deus ressoe no coração da assembleia sem distrações.

🎹 Sugestões de Cantos por Domingo (Ano A)

O combate espiritual e a vitória sobre o pecado.
  • Entrada: "Senhor, eis aqui o vosso povo" (Pe. José Weber) – Foca no deserto e no perdão.
  • Comunhão: "Não só de pão vive o homem" (Tradicional Litúrgico) – Letra baseada em Mateus 4,4.

A luz que antecipa a Páscoa para encorajar os discípulos.
  • Entrada: "O vosso rosto, Senhor, eu procuro" (Sl 26/27)
  • Comunhão: "Mestre, bom é estarmos aqui" (Pe. José Weber) – Reflete a frase de Pedro no Tabor.

Início dos escrutínios batismais. Jesus é a fonte que sacia a sede.
  • Entrada: "Minha alma tem sede de Deus" (Sl 41/42)
  • Comunhão: "Quem beber desta água que eu dou" (Hinário Litúrgico) – Foca no diálogo de Jesus com a Samaritana.

Domingo Laetare (da Alegria). A cura da cegueira espiritual.
  • Entrada: "Alegra-te, Jerusalém" (Antífona de Entrada própria deste domingo)
  • Comunhão: "Eu sou a luz do mundo, diz o Senhor" (Canto Bíblico sobre João 9)

A esperança na vida plena antes de entrarmos na Semana Santa.
  • Entrada: "Das profundezas clamo a vós, Senhor" (Sl 129/130 - De Profundis)
  • Comunhão: "Eu sou a Ressurreição e a Vida" (Baseado em João 11)

A entrada messiânica e o Servo Sofredor.
  • Procissão: "Hosana ao Filho de Davi" ou "Os filhos dos hebreus"
  • Comunhão: "Pai, se este cálice não pode passar" (Melodia para o Sl 21/22)

📚 Fontes e Referências Litúrgicas

Para garantir que nossa música esteja em plena comunhão com a Igreja, baseamos nossas orientações nos seguintes documentos oficiais:

MISSAL ROMANO. 3ª Edição Típica para o Brasil. Brasília: Edições CNBB, 2023.
Esta é a fonte primária. Ela contém as antífonas, as orações e as rubricas (instruções em vermelho) que determinam a omissão do Glória e do Aleluia, além de indicar o caráter sóbrio da Quaresma.

CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS. Instrução Geral sobre o Missal Romano (IGMR). Brasília: Edições CNBB.
Especificamente os números 313 (sobre o uso de instrumentos) e 366 (sobre a escolha dos cantos).

CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia. 1963.
O capítulo VI é inteiramente dedicado à Música Sacra, definindo que ela é parte integrante da liturgia solene.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB). Hinos Litúrgicos: Quaresma e Semana Santa (Ano A). Coleção Hinário Litúrgico da CNBB. Brasília: Edições CNBB.
Esta obra impressa contém as partituras e letras aprovadas para o uso litúrgico no Brasil, garantindo que os cantos tenham fidelidade bíblica.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB). Documento 43: Animação Cantada da Liturgia no Brasil. Brasília: Edições CNBB.
Documento pastoral que orienta sobre a função ministerial da música e a importância de escolher cantos que respeitem o tempo litúrgico.

CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO. Carta Circular sobre a Preparação e Celebração das Festas Pascais (Paschalis Sollemnitatis). 1988.
Documento que detalha como deve ser o clima espiritual e musical desde a Quarta-feira de Cinzas até a Vigília Pascal.

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